sábado, 6 de dezembro de 2008

1502 : O ENCONTRO DE CIVILIZAÇÕES

Title: 1502 - A Civilizations encouters [1]



Aquela manhã de Fevereiro de 1502 seria especial para a nação Carijó, os senhores da baía. Como outro dia qualquer de verão na sua baía Parnagoá, a vida transcorria como há milênios. As pirogas cortavam suas águas, impulsionadas por braços fortes e hábeis na condução de suas pequenas naves perfeitamente esculpidas em troncos de canela.

Fora da baía, três naves à vela costeavam o litoral de Superagüi, em busca de um grande estreito que há séculos navegadores europeus estavam obcecados em achar: O caminhos para as Ilhas Molucas, na Ásia.

Três caravelas impulsionadas pela brisa terral da manhã e pela maré enchente na barra norte, aproaram suavemente para Oeste, adentrando ao estuário. O comandante da frota, o luso Gonçalo Coelho, sinalizava aos demais veleiros para arribarem a sudoeste, em direção ao uma pequena enseada de uma bela ilha situada na entrada da baía.

Os estandartes brancos com a Cruz da Ordem de Cristo estampada com as Quinas das Armas do Reis de Portugal, pela primeira vez adentravam àquelas águas. E para aqueles homens, a descoberta do paraíso.

Américo Vespúcio, o cosmógrafo da flotilha, estava tenso. Algo de fantástico se acrescentava às suas viagens anteriores pelo Caribe. Mas desta vez era diferente, aquele grande caudal de água salgada poderia ser a tão esperada passagem para os mares à Oeste que Colombo e tantos outros navegadores procuravam e ele naquele momento sentia próximo.

O Comandante dá a ordem de soltar ferros na enseada das Conchas, na bela Ilha do Mel e ordena que seu imediato com dois batéis desembarquem na praia para reconhecimento e ter fala com alguma gente da terra.

As ondas quebravam timidamente na areia macia e grossa da ilha coberta de mata e exalando perfumes e cantos de aves que não se intimidavam com a chegada daqueles estranhos visitantes. Os batéis batem à praia. Os homens atentos e com seus arcabuzes em punho, caminham por toda sua extensão, enterrando suas pesadas botas sob o sol que começava a apresentar-se aos europeus que há meses se aventuravam nos trópicos, brotando em suas testas as primeiras gotas de suor e apreensão pela chegada em mais uma nova terra.

O chefe do grupo, marinheiro experiente de outras campanhas, não queria ser surpreendido por nativos antropófagos como assistira nesta viagem à vulgarmente chamada Terra do Brasil , em desembarque semelhante mais ao norte a poucos meses.

Mas ninguém apareceu. O sinal foi dado às caravelas. Estava tudo perfeitamente calmo. E os marujos embarcaram nos batéis restantes dirigindo-se à praia.

Ao chegarem à praia, Gonçalo Coelho e Américo Vespúcio conversavam com olhos estalados ao seu entorno. A paisagem deslumbrante era cenário para seus cálculos de navegação e o desenrolar de suas Cartas de Marear. Enquanto confabulavam, o comandante, Américo e os capitães dos três barcos, um punhado de homens à mando do capitão, subiam um morro no lado oeste da ilha para de lá fazerem mirada e retornarem com suas impressões.

O Morro da Baleia e sua mata fechada, demandaria horas de subida pela dificuldade de abrir caminho à facão, após ser alcançado pelas pedras que o costeiam . Mas por sua altura na boca da barra, seria ponto estratégico para que o homem da vigia pudesse repassar ao comandante Gonçalo e a Américo suas impressões antes de adentrarem àquelas águas.

Ao final da tarde os homens estavam de volta, relatando que perdiam de vista a água que adentrava ao continente em direção à oeste, mas que não era possível ver se havia alguma passagem no maciço rochoso que se avistava no horizonte. Não eram nevadas, como dizia a lenda da serra da prata, mas eram imponentes e corriam em paralelo ao oceano, da forma que vinham observando desde o rio que batizaram no janeiro último: o rio de janeiro.


Os homens também haviam relatado que estavam de fato numa ilha, que vista do morro podiam confirmar outra barra ao sul, com ondas que quebravam sobre bancos de areia, sendo portanto melhor a utilização do canal pelo qual entraram, caso retornassem.

Américo se punha a escrever nos pergaminhos que sacou de sua bolsa de couro de carneiro. Gonçalo Coelho pergunta-lhe sobre qual sua sugestão. Seguiam viagem de retorno à Portugal ou continuavam a viagem à oeste?
O florentino Américo Vespúcio, homem curioso e culto, sabia que aquele lugar lhe inspirava á algo mais especial na vida do que havia feito até então. Sugere a Gonçalo que ali pernoitassem, para que no dia seguinte avançassem à oeste por aquela que poderia ser a grande descoberta da sua era : a passagem paras as ricas especiarias das Índias.


Á tarde um temporal vindo de noroeste se abate sobre as caravelas, relâmpagos e trovoadas assustam alguns dos novatos marinheiros da flotilha, mas a chuva generosa serviu de alivio àqueles lusos desacostumados ao tórrido calor tropical que colava suas roupas na pele pela umidade que se misturava ao suor de seus corpos cansados pela odisséia que viviam.

Os veleiros balançavam na enseada, aproadas a noroeste e seguras pelos ferros que brigavam contra a corrente que vazava.
Passada quase meia hora, o temporal era apenas uma chuva de verão, e a marujada aproveitava para refrescarem-se em merecido banho.

A noite caía calma. Era hora de descanso para a exploração que se daria na manhã seguinte. O paraíso chamava. A Europa e suas famílias eram distantes. Os pensamentos embalavam o sono e a noite se fez.

Américo não dormia. As estrelas eram sua paixão. O céu austral era totalmente novo. Que inveja os astrônomos europeus sentiriam dele quando escrevesse seu livro com seus apontamentos e descoberta de novas constelações. Que cálculos, alturas, longitudes e latitudes poderiam ser extraídos destas observações que só ele era capaz de abstrair daquele ambiente naquele momento. Seu astrolábio é retirado do estojo de madeira, e as tabelas do almanaque são iluminadas pela lanterna de óleo de peixe que sua apertada cabine lhe oferecia. Sua intuição começava a ser confirmada por suas medições, mas esperaria o dia seguinte para conversar com Gonçalo, o comandante.

Os suspiros de botos nos costados das embarcações parece que convidavam a todos a um passeio pelo interior do estuário. As araras despertavam as tripulações, e os capitães davam o início à faina do dia. Os ferros foram levantados para aproveitar a maré que enchia a baía com água que o mar oceano mandava.

Enquanto o terral de sudoeste suavemente estufava as velas, os capitães timoneavam seus veleiros numa orça folgada, enquanto os homens da vigia miravam atentamente o caminho que haviam mentalizado ao subirem no alto do morro da ilha. A cor das águas e suas marolas, indicavam se haviam baixios ou pedras que impedissem o passo. Mas tudo estava limpo, e as naus lentamente adentravam à baía.

A estibordo uma imensa baía se apresentava a norte/nordeste, mas o rumo era oeste, assim seguiam.
A água limpa do oceano empurrando as três caravelas adornadas com seus estandartes lusos eram naves estranhas àquele paraíso, que nunca mais seria o mesmo.
Américo e Gonçalo, espreitavam as margens e horizontes com suas lunetas, tudo era belo como desde o início em que chegaram à estas terras reclamadas pela Coroa Portuguesa, seus senhores.
No final da ilha em que estavam, podiam notar o contorno que esta fazia em direção ao oceano, conforme descrição dos homens que haviam escalado o morro. Percorridas 6 milhas náuticas, à bombordo outro canal interior se apresentava saindo possivelmente de ilhas que mostravam seus contornos e alto relevo do meio de uma vegetação plana. Era a ilha que os Carijó chamavam de cotinga, o passarinho colorido que costumava ter ali seu habitat.


Quanto mais penetravam no interior daquele estuário, mais olhos espreitavam aquelas grandes pirogas à vela nunca vistas no mar redondo .
Os Carijó estavam atônitos. Já tinham ouvido falar que seus parentes mais a nordeste e ao sul, de que homens de pela clara tinham sido abandonados naquelas terras e estavam vivendo entre seus primos de outras regiões, mas quem estariam naqueles barcos enormes que lenta e silenciosamente invadiam a sua parnaguá?


Seus barcos gigantescos não eram possíveis de serem enfrentados com suas frágeis canoas, os homens a bordo quase não mostravam seus rostos, eram vestidos com roupas e metais que cintilavam à luz do sol que aos lhe ofuscava a visão ao fixarem-se na aproximação daquelas estranhas naves. A mente Carijó estava confusa. Eram impotentes. Seus primos falavam a verdade, não era lenda. Os homens brancos e grandes naves existiam, e chegaram!


Aquela passagem não terminava, os capitães sacavam água da baía e experimentavam: "salgada!" gritavam ao comandante. Américo mal se continha. Água salgada após ter adentrado 14 milhas rumo oeste no continente desde que levantaram ferro da enseada das Conchas, era sinal que poderiam ter encontrado a passagem à oeste. Ao mesmo tempo algo lhe inquietava: A longitude.


Três anos após sua primeira viagem, ao Caribe em 1498 à serviço dos Reis Católicos de Espanha, Américo aperfeiçoara seus cálculos da longitude que conseguira fazer naquela viagem. Sendo um homem da renascença européia educado com a nobreza de Florença, sua aprendizagem em geometria e matemática lhe davam os fundamentos para fazer ensaios de navegação astronômica dominada por poucos na época. A latitude já era plenamente dominada por pilotos e cosmógrafos lusos e castelhanos, mas a longitude não.


Vespúcio sentia que estava "demasiadamente a oeste" para uma expedição a serviço de Portugal.


Nas proas das caravelas, as medições de profundidade davam segurança folgada ao avanço da flotilha de Gonçalo Coelho, que após a ilha cotinga orçavam lentamente para oeste/noroeste, e ainda mirava-se água à frente. A busca da passagem continuava.


O sol a pino, céu azul brilhante, a faces começavam a mostrar seus primeiros pingos de suor pelo calor úmido torturante para um marujo europeu. Os capitães e Américo atentos nas muradas. Enquanto a corrente de maré aos pouco se enfraquecia, e a brisa terral ia sendo expulsa pelo calor do dia que prometia temperaturas elevadas, comum ao verão na região do Trópico de Capricórnio.


Percorridas cerca de 20 milhas, o vento parou, a maré estofa. Eram passadas duas horas do meio dia. O calor chegava a 36°, comum nesta época do ano, mas nunca para um europeu. O Comandante pára a flotilha. As sinalizações por bandeiras que ficam caídas nos mastros, os ferros são lançados.



Os contrafortes rochosos estão mais nítidos. Uma muralha granítica iluminada pelo sol daquela hora, não vislumbra alguma sombra que indique uma passagem. Parece o fim do caminho.
"Índios!" grita o capitão de uma das caravelas. As lunetas se voltam a bombordo ao lado de uma ilha com um morrete e uma pequena praia à embocadura de um rio. Cerca de cinco canoas ficam à distância expondo-se aos veleiros lusos, como que esperando um gesto que indicasse uma tentativa de comunicação. Tal como fazem com tribos inimigas, os Carijó pararam sua pesca de bagres naquele local onde estes peixes abundavam - o nhundiaquara, permanecendo imobilizados fitando à distância aqueles estranhos seres que adentravam em sua baía.


Gonçalo ordena que alguns batéis sejam postos na água e que seja tentado contato com a gente da terra. Anzóis, facas, espelhos e miçangas foram prontamente embarcadas para o encontro. Os marinheiros de escolta com arcabuzes, seguiam os batéis da frente para lhes dar cobertura. As lembranças de seu companheiro atacado e comido pelos Tupinambá ao chegarem na costa da Terra do Brasil não era esquecido.


Uma apreensão tomou conta do ar. Quatro batéis com marinheiros e soldados se afastam a remos das caravelas com suas velas com a Cruz de Cristo encarnada, flutuavam na brisa que ocasionalmente soprava naquela hora.


Os Carijós de pé nas suas pirogas e um capitão da flotilha de pé no seu batel, se aproximava acenando presentes, que aos olhos incrédulos dos homens nativos não parecia ser objeto de agressão: Uma bodurna, uma lança ou uma flecha.


O passo das remadas dos lusos vão tornando-se mais suaves e cada rosto fica mais definido um ao outro. Corpos cobertos de uns e desnudos de outros. Gestos medidos e lentos, temperados pelos suor do medo e tensão, são ingredientes de civilizações distantes que naquele dia de verão do ano 1502 do calendário do Papa Gregório , se encontram na parnagoá.


Os donos do grande mar redondo, recebem os presentes daqueles estranhos homens de pele branca que cobrem seus corpos com tecidos estranhos e alguns com a cabeça com um cocar de metal.


A ilha eles chamavam de guarapirocaba - lugar onde as garças trocam as plumas - que um dia o homem branco cinco séculos depois chamaria de Ilha do Teixeira.


A tensão diminui. Ao longe na boca do rio, mais pirogas Carijós aparecem à visão das lunetas de Américo e Gonçalo, mas ficam à distância, mirando aquela cena insólita onde seus irmãos se encontram com homens vidos das grandes canoas. As mentes fervem. O dia do encontro havia chegado. A lenda torna-se realidade.


Enquanto a maré está no seu estofo, Américo degusta a água do local. A salinidade é menor. A água doce misturava-se a salgada. Não havia mar oceano pelo meio da montanha. O estreito para as Ilhas Molucas não seria por ali.


O capitão enviado por Gonçalo gesticula. Obedece aos gestuais de praxe, demonstrando amizade e mostrando algumas peças de metal dourando na tentativa de obter alguma confirmação de conhecimento por parte da gente da terra. Os Carijó apontam para a serra-acima, induzindo o luso a perceber que em algum lugar além da parede rochosa o metal era conhecido.
Gestos para seguir-se adiante com as caravelas não foram otimistas na interpretação dos marinheiros. Os Carijó demonstravam que as grandes canos poderiam ir mais adiante, mas o fim do caminho era próximo.


Enquanto batéis e pirogas se confraternizavam, as velas latinas e as proas dos veleiros rondavam para leste. A maré de enchente trazia o vente de leste/nordeste. Gonçalo sinaliza aos seus homens que é hora de voltar, e assim o fazem. Despedidas com acenos com mães desarmadas expressam a confiança estabelecida pelos dois grupos, e os batéis retornam às caravelas.


À bordo, o capitão de Gonçalo descreve suas primeiras impressões, e transmite a Américo o que ele pressentia: Os nativos dizem que não há passagem por água para o outro lado da serra. Era o fim do que se costumava chamar de "rio" , já que não era uma passagem estreita: Um estreito.
"Levantar ferros!"



As três embarcações iniciaram sua velejada a rumo leste, contra o vento, ziguezagueando pelas águas da baía. A maré enchendo e o vento tornando-se cada vez mais forte, lhes davam plena segurança de uma bela velejada, fazendo uma infinidade de bordadas, tal qual uma regata à vela em plena Baía de Paranaguá.


A tarde se pronunciava, o sol mostrava a Américo que iria se pôr através dos contrafortes rochosos que a ele foi proibido ultrapassar, mas, permitido a sonhar.
Gonçalo sinaliza à flotilha o que havia combinado. Retornariam à ilha na saída da barra, e soltariam ferros no mesmo local onde pernoitaram na noite anterior e de lá planejariam seu regresso à Portugal.


Aos Carijó ficariam algumas lembranças e estórias para seus filhos e netos, de homens e naves poderosas que um dia no futuro voltariam para revê-los, que somente muitas décadas após este encontro a história seria outra: E diferente.


Ao entardecer na praia da enseada das Conchas, na ilha que seria conhecida mais tarde por ter muito mel, Américo e os capitães se reúnem para conversar, como de costume. O florentino surpreende a todos ao declarar que "não estamos em terras do nosso sereníssimo Rei de Portugal. Pelo Tratado de Tordesilhas que Vossa Majestade firmou com os Reis Católicos de Espanha, entramos em terras de Castela."


Os capitães ficaram decepcionados. Afinal, serviam ao Rei de Portugal, vieram até aqui em reconhecimento e à serviço deste. Para o comandante Gonçalo Coelho, era o fim das expedições nas Terras do Brasil.


Como o faz os cultos e nobres, Vespúcio pôs-se a explicar a todos em que latitude se encontravam, e com base em cálculos que desenvolvera há três anos atrás, a serviço dos Reis de Castela, sacou seu astrolábio e almanaques, enquanto a marujada reunia-se no seu entorno sob a permissão de Gonçalo.


Explicou que desde a latitude 24°, a costa destas terras inclinavam-se cada vez mais à oeste, o que tenderia a colocar as terras mais ao sul, sob jurisdição espanhola, conforme acordado em Tordesilhas. Pelos seus cálculos na noite anterior e com as medições que fizera e com a expedição ao interior do continente que fizeram hoje, o contato com aquela gente da terra seguramente estava em território castelhano.


A decepção abateu-se naqueles marinheiros que naquela noite calma, se refrescavam pela brisa do oceano que estourava suas ondas no outro lado da ponta da ilha, após um dia escaldante e tenso com o contato com os Carijó.


Em volta de uma fogueira, assando peixes na brasa, escudando-se na fumaça para protegerem-se de minúsculos mosquitos do tamanho de um grão de pólvora, murmuravam uns aos outros sobre seus destinos.


Américo Vespúcio era um diplomata. Comerciante italiano, representantes de interesses comerciais florentinos junto a reis e rainhas ibéricos, navegante por paixão, e culto por formação na sua terra natal, estava ali, numa praia deserta de um novo mundo, longe da civilização européia, cercado por marinheiros incultos, tentava levantar-lhes o moral explicando-lhes onde estavam e a importância daquela expedição, e que sentia a proximidade do "achamento" da passagem às Índias em algum lugar daquelas costas mais ao sul.


Defrontavam-se com uma decisão a tomar: Regressar a Portugal ou seguir ao sul em busca da "passagem" e entrar para a história?
Gonçalo num gesto nobre, presidiu a primeira assembléia democrática no novo continente, deixando nas mãos de seus homens tamanha decisão. Avisou-os que, por estarem em terras castelhanas, segundo explicava Américo, deixaria de comandar a frota caso a decisão fosse a de avançar ao sul.


Não houveram dúvidas. Aqueles homens, rudes, corajosos e marinheiros, confiaram a Américo Vespúcio o comando da frota, que na única vez em sua vida exerceu tal cargo. Concordavam em velejar mais ao sul e aventurarem-se a novos descobrimentos. E assim foi feito.
Os capitães então ordenaram que no dia seguinte fariam aguadas e cortariam lenha para a campanha, pois com isso teriam suprimentos para os próximos seis meses até o retorno a Portugal.

Enquanto naqueles dias os marinheiros faziam a faina dos barcos e se preparavam para seguir viagem, os Carijó sentiam mais à vontade de aproximarem-se da flotilha ancorada. Pirogas vinham juntar-se aos lusos, oferecendo-lhes peixes e frutas, buscando fazer trocas por qualquer objeto de metal ou vidro onde seus olhos podiam mirar. Enquanto os homens cortavam lenha e faziam tábuas para a manutenção dos tabuados das embarcações eram , admirados sob os olhares admirados dos Carijó. Facões e machados eram os objetos do desejo índio. Afinal, a derrubada de um árvore para a confecção de uma canoa que levaria quase um dia , um machado a colocava no chão em menos de uma hora. Uma nova tecnologia era conhecida pelo povo da baía.
Naqueles dias de verão os corpos estavam desnudos, bem feitos e belos, apresentavam-se aos brancos estupefatos sem nenhuma vergonha.


Os dias se passavam e as resistências recíprocas iam se dissipando pela confiança mútua que se estabelecia. Poucos dias antes da partida da frota, um grupo de índios chegara à presença de Gonçalo e Américo. Era uma bela mulher índia e seu companheiro, com sua filha com aparência doentia. Os gestos nervosos da mulher indicavam uma súplica para que os comandantes prestassem algum auxílio à menina índia.

Nada podiam fazer para aplacar a febre que demonstrava a criança. Após a família Carijó retirar sem a esperada cura para o mal que abatia sua menina, Américo subiu o morro da ilha , em frente à enseada em que estavam ancorados. Era hora de batizar o local da mesma forma que já havia feito durante a expedição até ali com os nomes cristãos que o almanaque vinha indicando: Cabo de Santo Agostinho, Baía de Todos os Santos, Rio de Janeiro, Ilha de São Vicente.

Mas no alto da colina, apreciando a bela baía na qual tinha explorado há duas semanas, o convívio pacífico com o "gentio" da terra, e pensando na mãe índia que tristemente se retirara sem a cura para a filha, Américo antes de abrir suas cartas náuticas para assinalar e nomear aquele lugar, lança mão de sua Bíblia, e vai diretamente ao livro de Mateus (15.21-29), pois sua mente de homem altamente religioso presumia que aquele momento e lugar tinham algumas similaridades com uma passagem muito especial, e pôs-se a ler:


"Jesus saiu dali e foi para a região que fica perto das cidades de Tiro e
Sidom [ cidades no litoral do mar Mediterrâneo, fora da terra de Israel]. Certa
mulher Cananéia, que morava naquela terra, chegou perto dele e gritou: --
Senhor, filho de Davi, tenha pena de mim! A minha filha está dominada por um
demônio e passando muito mal [...].E naquele momento a filha dela curada. Jesus
saiu dali e foi até o lago da Galiléia. Depois subiu um monte e sentou-se".




Américo já sabia que nome a batizar aquele lugar: Rio da Cananéia e sua bela ilha (atual "do Mel"). Da mesma forma, que fizera antes para as baías que (as quais era comum os cartógrafos da época chamarem de "rio"), mais ao sul , batizaria o Rio de São Francisco (atual ilha de São Francisco do Sul, e sua baía de Babitonga). Anotou as medições de latitude do lugar e anotou-os no seu "livrinho" que mais tarde entregaria por empréstimo ao Rei de Portugal.

Duas semanas haviam transcorrido. Ventos nordeste permitiram às três caravelas velejar folgadamente pelo canal sueste da barra, enquanto a maré vazante acelerava os veleiros que contornavam a Ilha do Mel , apontando suas proas ao su-sudoeste, no rumo que a agulha de Américo indicava.


O mundo não seria mais o mesmo. Nem tampouco a Baía de Paranaguá.


[1] Este capítulo é uma ficção desenvolvida pelo autor, baseado na sua tese histórica fundamentada neste livro-blog.

5 comentários:

Manuela Oliveira disse...

Agora já é tarde! O Destino me fez "topar" com este Blogg. Não serei, provàvelmente, quem o autor mais gostaria que o visitasse em primeiro lugar...também não posso dizer que sabê-lo dedicado a este tipo de tema me surpreenda, pois sou testemunha ( em antigas velejadas pela internet) de que este MARINHEIRO já se dedica a estes escritos sobre navegadores há bastante tempo. Pelo menos desde que foi Comodoro do Clube Náutico de Antonina.
Salvé Daniel! Professor Doutor Daniel..."o seu a seu dono".
Como homenagem e prova de que gostei, deixo-lhe um poema do Marinheiro Errante, um dos quatro pseudónimos de alguém que conhece:


PORTO SEGURO DO MARINHEIRO ERRANTE

O marinheiro, ainda que errante
achou este porto, de águas mansas.
Aqui ancorou, solitário e hesitante
depois de tantas tristes andanças.

Não queria o marinheiro triste
deixar por aqui nenhum poema,
mas é só por o mastro em riste
e remendar a pobre vela enferma,
que a inspiração, em atitude suprema,
qual vento, embuçado e vigilante,
do nada se desloca à escarpa erma
movida pela paixão tão suspeita,
que tem pelo Marinheiro_Errante
- homofática e assaz legítima!-
...e já se livra, em rajada ofegante,
da pesada capa do marasmo e endireita
os ombros sobre a voluntária vítima.

Ai... este marinheiro sem destino!
Não quer mostrar a imberbe face...
Não tem a proteção do Divino
nem rota de conflito que não trace...

Ai... este triste Marinheiro-Menino
que suspira por sedas delicadas
nas Índias conseguidas mil vezes...
o que sonhará, em tais jornadas,
em perigo posto, também reveses,
senão com o Amor que o Mundo
move? ...
senão com a Felicidade
que a todos adoça? Lá no fundo
será essa a sua Eterna Verdade?

Marinheiro_Errante eu sou,
a ninguém me quero revelar.
No Paraíso para onde vou
nada há para se conquistar.

É-se, deseja-se e toma-se
deliciosos frutos, amores sem par!
Respira-se, vive-se e ama-se...
Castigo? Não, nem a quem culpar...

Meus respeitosos cumprimentos pelo Blogg!

Daniel Lucio Oliveira de Souza disse...

Manoela,

Lindo poema do MARINHEIRO ERRANTE.
Você e sua alta sensibilidade de emociona.
Um beijo.
Daniel

Ana B. disse...

Adorei seu novo blog!
Ao ler esta postagem, fiquei cantarolando a música tema do filme 1492, A conquista do paraíso.
Se quiser, te dou as dicas para colocar música no blog!
Bjs

Manuela * TAGUARÉ disse...

Daniel, como vai vc?
Gostaria que soubesse que o seu artigo sobre a Cotinga me foi muito útil em pesquisa que tive de fazer esta semana para melhor poder opinar sobre o assunto.
também consegui boas revelações históricas no "site" da Torre do Tombo.
Se tiver curiosidade experimente:
www.cbg.org.br/links_tombo.html
e, a seguir,
ttonline.dgarq.gov.pt
...exatamente nessa sequência.

Meus cumprimentos

Manuela

Alexandre Miranda disse...

Eduardo Bueno não é historiador, ele é jornalista. O fato de ele ter escrito três volumes sobre a História do Brasil não o faz um historiador, talvez, de ofício, mas não formado. Tanto que seus escritos apresentam erros de datação, citação e interpretação. Sua intenção (mesmo comercial) foi boa, é a história para todos, contudo, faltou-lhe o rigor da técnica para evitar os erros.